São 20, eram 5 em 1986. O auge nos anos 80 e 90 do século XX. Duas décadas de consolidação dos ranchos folclóricos. Grupos etnográficos? Mais apropriado seria grupos etnofolclóricos: a diversidade das suas actividades assim o requer.
Como associações têm sabido ancorar o alfobre da cultura de Entre Douro e Minho. Explicamos: o Douro serve de tampão à subida do Islão, na época medieval, mas veicula as novidades do Porto para montante e vice-versa, a partir do século XVIII, com o barco rabelo. Negócios do vinho e da alma dos marinheiros: quem canta seus males espanta! Nos ancoradouros, sem a sinalética sofisticada do nosso tempo. A neblina era luz…Aqui fica um dos filões do etnofolclorismo em Marco de Canaveses.
Com um leito menos afortunado, o Tâmega dulcificava a passagem nas barcas. As pontes medievais, escassas, serviram os desígnios das peregrinações a Santiago de Compostela. Porto, Guimarães e Braga, locais de partida e de passagem, servindo de capitais comercial, política e religiosa, respectivamente. Mais uma fonte de aculturação das populações.
Com naturalidade, o Concelho mostra o rosto territorial do litoral e interior nortenhos – o Entre Douro e Minho. Nas necessidades do corpo (comércio), da alma e do espírito (sociabilidade religiosa e profana).
Que a sociologia pode explicar com os contributos etnográficos e etnológicos, estes a prosseguir pelos grupos etnofolclóricos. É imensa a listagem das suas actividades: festivais nacionais e internacionais; festas concelhias; encontros de cantadores de Janeiras; cortejos etnográficos; exposições etnográficas; Jornadas Etnofolclóricas do Vale do Sousa e Baixo Tâmega (4 edições); II Congresso de Folclore e Etnografia para Jovens, em Marco de Canaveses (1988), da responsabilidade da Federação do Folclore Português, com 825 participantes de todo o País.
São infindos os campos de investigação. É imperiosa a necessidade de sistematização em tantos roteiros a criar! Escolhas? O cantar não dançado; a lenda; a toponímia; o adágio popular; a alcunha; as orações, as rezas e os esconjuros; a medicina tradicional; a habitação tradicional e a arquitectura popular. Acrescentem-se as actividades de carácter artesanal: a cestaria; a tecelagem; os chapéus de palha; a tanoaria; a latoaria; os cobres; o calçado de madeira (soqueiro e tamanqueiro); o amolador; os carros de bois; os arcos das festas; a pirotecnia; os instrumentos populares; os brinquedos…
Além da fonte oral, mergulhemos no século XIX. Palmilhemos a pintura, as colecções de litografias, os desenhos, a fotografia, a literatura. Resultados? Trajos, procissões, peregrinações, romarias, feiras, costumes….
E as fábricas dos merinos, das caxemiras, das chitas, dos riscados, dos serrubecos, dos cotins? E a proveniência do metal que “ourava”, discretamente, a mulher?
Eis o pulsar do património etnográfico sulcado na coabitação de permanências e mudanças: invasões francesas; romantismo e realismo (literatura popular/descrições); emigração do “brasileiro”; 1.ª República; Conflitos Mundiais; Estado Novo; 25 de Abril.
Grupos etnofolclóricos, instituições culturais e poder local têm os ingredientes para subirem o patamar da identidade marcoense. À Escola basta apelar à flexibilidade curricular. Perpetue-se o perfil do nortenho: realizador, romeiro, criativo, empreendedor. E se é mais obreiro que artista, venham mais roteiros!
2006.11.14
José Carlos Meneses Rodrigues